domingo, 26 de março de 2017

Fé e luta de uma comunidade quilombola

Juliano Ferreira


Todos os anos moradores da comunidade de Barrinha da Conceição em Juazeiro se reúnem na capela para festejar a padroeira Nossa Senhora da Conceição. Entoando cânticos, acompanhado de um tambor, guitarra e ao som de fogos, a imagem da santa percorre a casa de todos os moradores todo 8 de dezembro, dia de culminância do novenário que inicia em 29 de novembro.

A moradora mais velha da comunidade, Roberta Maria dos Santos Oliveira, conta que o aldeamento do espaço começou a partir da vinda de seus antepassados de Canudos (BA) para Juazeiro. Eles fugiam da guerra que assolava a localidade, que durou de 1896 a 1897. A imagem de Nossa Senhora da Conceição foi conservada na casa da avó de Roberta, em sua casa de barro, onde realizava novenas em homenagem a santa. “Ela enfeitava a casa com correntes. Antes não tinha festa, mas as novenas”.

Roberta Maria, moradora de Barrinha da Conceição.
Foto: Adeilton Júnior/Quilombos e Sertões

O sincretismo religioso está muito presente na comunidade. Roberta lembra que havia a cultura de culto ao caboclo, nas proximidades da aldeia, mais especificamente na Ilha do Rodeador. Com pesar, ela diz que esse tipo de celebração “se acabou”, mas ainda se recorda de rituais como a chegada do caboclo “Juremeira”. Apesar do apagamento da tradição, a matriarca lembra de algumas cantigas daquele período:  

“Eu atirei, eu atirei e ninguém viu. 
Eu atirei, eu atirei e ninguém viu,
Seu Sete Flechas é quem sabe aonde a flecha caiu, 
Seu Sete Flechas é quem sabe aonde a flecha caiu”.

Hoje, a comunidade tem uma capela própria para a padroeira Nossa Senhora da Conceição. Apesar de se dizer um grupo essencialmente católico, os moradores recordam a existência de um terreiro de candomblé na aldeia. Alguns frequentaram as festas organizadas pelo pai Arlindo, já falecido.

Aos 26 anos, Larissa dos Santos Oliveira é a vice-presidente da Associação de Vizinhança de Barrinha da Conceição. Neta de Roberta, ela luta pelo reconhecimento da própria comunidade enquanto quilombola. O grupo tem aproximadamente 60 pessoas e não aceita pessoas que não  pertencem a comunidade. Os mais jovens têm dificuldade em admitir ser remanescente de quilombo, pois associam o fato ao preconceito racial.

Há algum tempo, a comunidade deixou de cultivar a terra e produzir o plantio. Hoje, a maioria da população trabalha na zona urbana de Juazeiro. Larissa explica que um dos ganhos da associação foi que o ônibus chegasse até a aldeia em horários regulares, transportando os moradores às 6h30, 12h e 17h, o que facilitou principalmente o acesso das crianças a escola, além do retorno dos trabalhadores. 

Na aldeia, não há uma escola para as crianças, tão pouco um posto de saúde próximo. Outro problema é a falta de saneamento básico. A associação pensa em implantar a agricultura familiar, construindo uma horta coletiva para os moradores, favorecendo a oportunidade de emprego e a alimentação. No entanto, não há irrigação, pois apesar da proximidade com o rio, eles não possuem um sistema para levar água às suas terras de plantio.

Quilombo

Orlando dos Santos Barros, natural de Salvador, chegou à Barrinha da Conceição para ajudar na construção do centro comunitário em meados de 2009. Casou-se com uma das netas de Dona Roberta, teve um filho e trabalha como supervisor de iluminação pública na Prefeitura de Juazeiro. Quando passou a morar em Barrinha, foi escolhido para ser o presidente Associação Comunitária dos Lavradores e Quilombolas de Barrinha da Conceição conhecida pelo nome fantasia de “Nossa Gente Quilombola”.

Após assumir o cargo de presidente, tomou conhecimento de que já existiam outras comunidades remanescentes de quilombo como Rodeador, Curral Novo, Quipá, Alagadiço, Passagem, Capim de Raiz, Angico, Deus Dará, Junco, Pau Preto e Barrinha do Cambão.

Assim como a história do surgimento da comunidade, no qual os antepassados, negros, estavam fugindo da guerra de Canudos. Barros destaca que a maioria das comunidades quilombolas não se reconhece como tal. Segundo ele, os moradores têm uma visão deturpada do ser remanescente de quilombo. E quando se afirmam o fazem inconscientemente, pois não sabem o que significa ser povo de quilombo. Orlando alerta ainda, que as manifestações culturais existentes na comunidade como o Samba de Veio e o terreiro de caboclo se perderam ao longo dos anos. As manifestações que não foram extintos passam por um processo de enfraquecimento como o rosário, feito em homenagem a Nossa Senhora da Conceição.

Diante de todos esses relatos é perceptível a falta de políticas públicas que abarquem e facilitem a permanência da tradição de comunidades remanescentes de quilombo como em Barrinha da Conceição. Apesar de ainda conservarem certa tradição, como a festa da padroeira do local, muito da cultura relembrada pela matriarca Roberta se perdeu com o tempo. Até mesmo a história da aldeia se vê na eminência de ser esquecida, já que é apenas a idosa que sabe narrar a história do seu povo.

                                                                      Juliano Ferreira é estudante de Jornalismo em Multimeios

sábado, 25 de março de 2017

Caleidoscópica


Foto: Arquivo Pessoal
Por Victória Resende

Lizandra Martins parece ser feita inteirinha de retalhos. De fragmentos da infância pelas ruas da Petrolina Antiga, das orações sussurradas por sua mãe quase rompendo o silêncio adormecido da casa, das canções de Jorge Ben bailando no toca-discos. Caleidoscópica, carrega consigo muitas cores. As cores das ruas de Ouro Preto, seu sonho de menina, e as cores da efervescente Avenida Paulista. Petrolinense, ribeirinha, sertaneja. Parece não caber nos seus 23 anos, então transborda. Através da arte, seu dicionário sobre este mundo que, às vezes, parece um emaranhado complicado demais de se compreender.


Os quartos da casa
Guardavam ventos
Cheios de silêncio
Nossas almas
Guardavam gritos
De dias
Inquietos
Nosso amor
Meu e de mainha
Guardavam a gente
Com canções e sopas
Ao anoitecer.

Ao ser questionada sobre a sua relação com a fotografia, sorri. Eduardo Galeano, jornalista e escritor uruguaio, certa vez escreveu que recordar é voltar a passar pelo coração. Conta que, quando criança, costumava brincar de registrar momentos com a câmera analógica da sua mãe, Dona Ilza. Mas somente alguns anos mais tarde tomaria gosto pela arte que hoje carrega como profissão.

Saía pela cidade em pequenas expedições fotográficas. Escrevia Petrolina com luz. Utilizava o equipamento dos amigos para fazer os registros. Até que decidiu adquirir a própria câmera compacta, que perdeu em seguida. E embora a definisse como “simples e bastante precária”, foi essencial para que se interessasse ainda mais pelo estudo e prática da fotografia.

Confessa que olhar através das lentes lhe permitiu o reencontro com algo muito precioso: suas raízes. Relembra dois momentos especiais neste processo: o primeiro, é o ensaio “Mãos Sertanejas”, que iniciou na Oficina do Artesão Mestre Quincas, em 2012. “Agora eu vou lá e às vezes nem levo a câmera”. Chega, reencontra os amigos artesãos, prepara um café, escuta suas histórias. Se apaixonou pelo local. 


“Me identifiquei com o trabalho dos artesãos, 
com o que eles retratam. Comecei a criar um laço afetivo 
maior com a minha região”.


O segundo momento foi a Exposição Travessia, lançada em abril de 2015. Em 2014, Lizandra começou a registrar com o smartphone o percurso que fazia nas barquinhas que ligam Petrolina e Juazeiro. Utilizava as pequenas embarcações diariamente para ir e voltar da universidade, onde cursava Pedagogia. A ideia era somente publicar as fotos nas suas redes sociais. Sua Travessia surgiu despretensiosa, através de uma sugestão de Chico Egídio, seu companheiro e curador da exposição que reúne 30 fotografias.

Foto: Lizandra Martins
Exposição Travessia 


Além da fotografia, tem outra paixão: a literatura. Seu semblante se ilumina quando fala dos autores prediletos. Cita Ana Cristina Cesar, Caio Fernando Abreu, Hilda Hilst, Euvaldo Macedo Filho. É como se abrisse as janelas dos cômodos da memória e ventilasse poesia. Tem um carinho especial por Euvaldo: juazeirense, fotógrafo e poeta. Uma das suas inspirações no ofício que realiza com tanto amor.  

Lizandra também mantém o hábito de escrever e suas palavras possuem uma particularidade: “escrevo aquilo que não consigo registrar com a câmera”. 


Pegava seu cigarro de palha
Ficava horas
Reparando as águas
Os meninos alegres
Que se aproximavam
Com a barriga cheinha
De sonhos
Em meio ao cheiro de peixe fresco, ventos e calor


A poesia de Lizandra tem qualquer coisa de filme todos os sábados às 18h ou “Samba de Orly” tocando repetidamente. E por falar em Chico Buarque, a sua arte paira como se fosse “feita de luz mais que de vento”.

Victória Rezende é estudante de Jornalismo em Multimeios, matéria produzida em dezembro de 2016 e atualizada em 25 de março de 2017.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Agricultura familiar favorece geração de renda e oferta de produtos saudáveis

Por Nayra Lima 

A cebola, batatinha, feijão, mandioca, alface e o coentro que chegam a mesa do brasileiro são produzidos por agricultores familiares. O setor responde por 70% dos alimentos consumidos no país. Segundo dados do Censo Agrário de 2006, 84,4% dos estabelecimentos no Brasil são de proprietários familiares, dos quais metade está localizado na região Nordeste. Uma das propriedades é a de Emerson José da Silva, mais conhecido como Mitú, que possuí 100 hectares de área de sequeiro em Lagoa do Meio, distrito de Massaroca.                                              


Emerson nasceu em São Paulo, e, aos três anos, veio para a Bahia com sua família. “Na verdade eu nasci nesse ramo. É uma tradição, minha mãe ainda trabalha com isso, ela é aposentada, pensionista e ainda continua na lida, na roça”, conta. Como a produção dele é em área de sequeiro, localizada em áreas com baixa pluviosidade e sem sistema de irrigação, dependendo exclusivamente da chuva, o agricultor planta somente feijão, palma e capim para os animais. “Só temos água para o consumo humano. Ainda estamos em uma área privilegiada, conseguimos água encanada do Rio São Francisco” afirma Emerson, que atualmente é presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Juazeiro.

Durante anos, as políticas públicas não chegavam em muitos distritos do município e havia problemas voltados para a agricultura familiar. A chamada modernização da agricultura foi seletiva, beneficiou o grande produtor rural que tinha investimento para multiplicar a produção, deixando o pequeno agricultor à mercê. “Os latifúndios seriam aqueles beneficiados pelas políticas, iriam receber o pacote de benefícios dessa chamada “revolução industrial” e eles seriam os responsáveis pela mudança no cenário rural,” explica Gilton Albuquerque, professor de Economia e Administração Rural do Departamento de Tecnologia de Ciências Sociais, da Universidade do Estado da Bahia.

A agricultura familiar ficou à margem de todo esse processo de modernização do campo, e o grande produtor rural foi eleito como o condutor do desenvolvimento, produzindo para agroindústria e exportação. “Aqui, no contexto do Vale do São Francisco, existem fazendas de  manga e uva que foram beneficiadas por programas de plantação no período de irrigação na década de 1940 e 1950 para desenvolver a região,” afirma Gilton.

Gilton Albuquerque
O segmento passou a ser valorizado depois que diversos movimentos sociais se integraram para lutar por direitos que lhes eram negados. Essa luta resultou em avanços, como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), benefício que chega ao agricultor por intermédio da Declaração de Aptidão ao Pronaf (DAP) que comprova a condição de agricultor familiar, cuja renda deve ser de até 360 mil anual, e possibilita que ele seja assistido pelos programas, como linha de crédito bancário, entre outros. Apesar das melhorias, ainda existem deficiências, e o micro produtor continua lutando para produzir.                                                                                      

A Secretária de Políticas Agrícolas do Sindicato dos Trabalhadores Rurais em Juazeiro, Regina Lúcia Lima, relata que algumas das políticas públicas finalmente chegaram até o pequeno produtor por meio da sindicalização rural.

“Funcionamos como uma forma de  orientação e organização da aposentadoria rural, benefícios sociais e o Pronaf".  

Segundo a Superintendência da Agricultura Familiar, cerca de 3.918 famílias são atendidas em Juazeiro. Outros benefícios, como o Microcrédito Rural (Agroamigo), Garantia Safra e outros possibilitam que o agricultor tenha condições para continuar produzindo. “Esse ano, em Juazeiro, será feita a liberação do crédito bancário  - dentro do sindicato -  para mais de 2 mil agricultores, isso significa, mais de 8 milhões de reais que circulou só desse microcrédito. Parece ser pequeno, mas não é”, menciona Emerson José da Silva.                                                                                                                  
Outros avanços importantes foram adquiridos na distribuição destes benefícios, com a perspectiva de fazer planejamentos por territórios, observando o contexto do local, as dificuldades e  potencializando politicas adequadas para cada conjunto de agriculturas familiares.                                                                                                                                                                                          
Instituições de apoio

Organizações como a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e  do Parnaíba (Codevasf) e o Instituto Regional da Pequena Agricultura Apropriada (IRPAA) também auxiliam o agricultor familiar no processo de produção. Existem diversos tipos de agricultores familiares e todos têm importância para a comunidade e o meio urbano, pois é de lá que vem os alimentos consumidos.

Alimentos que as commodities não distribuem e que chegam até o consumidor por meio da mão de obra rural. “O agricultor familiar atua na perspectiva do respeito ao meio ambiente, diferente do agronegócio, que trabalha sempre com aportes tecnológicos, agroquímicos e uso de máquinas de aplicação de defensivos por aviões. A agricultura familiar não usa esses tipos de tecnologias agressivas, pelo contrário, ela busca valorizar os recursos naturais” explica o professor Gilton.          

De acordo com a Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário, os lucros provenientes desta agricultura respondem por 35% do Produto Interno Bruto nacional (PIB). O professor de Gilton Albuquerque esclarece que o meio rural não é exclusivamente agrícola, os componentes da família têm oportunidades para além daquele meio, gerando novas fontes de renda. “Hoje, a agricultura familiar produz, mas parte da família pode conseguir sua renda fora da área de produção. É a chamada atividade pluriativa,  uma outra vantagem da agricultura familiar”.
                                                                                                                         
Conheça o Pronaf 
                                                                                                                           
Os projetos financiados pelo Pronaf devem gerar renda aos agricultores familiares e assentados da reforma agrária, sendo destinados para o custeio da safra e para a atividade agroindustrial, seja para investimento em máquinas, equipamentos ou infraestrutura.  Após a decisão do que financiar, a família deve procurar o sindicato rural ou Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) para obtenção da Declaração de Aptidão ao Pronaf (DAP). Em seguida, o agricultor deve elaborar o Projeto Técnico de Financiamento.  

O projeto deve ser encaminhado para análise de crédito e aprovação do agente financeiro para negociar o financiamento. Aprovado o Projeto Técnico, o agricultor familiar está apto a receber o recurso. As taxas de juros que variam entre 2% e 5,5%.

Por Nayra Lima, estudante de Jornalismo em Multimeios 

domingo, 19 de março de 2017

Dos Babas aos Campeonatos de Várzeas


Por: André Calixto


                                                                                     
O futebol possui raiz nos tradicionais “babas”, realizados em campo de terra batida que se espalham por toda a cidade. Como um ritual sagrado, o prazer e a dedicação pelas peladas e disputas das competições, que ocorrem em quase todos os bairros, dão origem aos disputados campeonatos de várzea. Contudo, nos últimos anos, os campos de várzea têm perdido espaço para a especulação mobiliária. 

O dirigente da Liga Desportiva Maravilha (LDM), Rosoilson da Silva, popularmente conhecido como Doca, recorda que, na década de 1970, os "babas' do bairro Alto da Maravilha eram realizados em um terreno nas proximidades da Lagoa de Calú. Já, em 1980, a prática esportiva passou a ser realizada no campo Adalberto Matos, situado em torno do pátio da feira livre. Neste espaço, foram iniciados os primeiros campeonatos de ruas do bairro, com a participação de times das ruas de número Um ao Oito, incluindo também a rua Baixa, da Travessa do Matatu.

Entre o final da década de 1980 e início dos anos 1990, com a construção dos edifícios residenciais e casas comerciais na área do campo Adalberto Matos, os dirigentes e atletas ocuparam o terreno às margens da BR-235, ao lado da empresa de transportes, para manter a tradição da prática esportiva. O novo espaço foi batizado de Campo da São Luiz. O local tem uma área ampla e a LDM decidiu realizar o campeonato aberto do Alto da Maravilha com a participação de equipes de outros bairros. Dezenas de competições foram realizadas no espaço. A comunidade esportiva temia a qualquer momento ter que desocupar o terreno do Campo da São Luiz, uma vez que o terreno era de propriedade particular, relembra Rosoilson.

André Calixto (foto)
Após 15 anos sediando os campeonatos no terreno, os desportistas sabiam que não iriam usufruir por muito tempo do campo para o futebol. Em 2010, engenheiros civis de posse da documentação do terreno mantiveram uma conversa com os dirigentes da LDM e informaram que o terreno fora vendido para a rede Assaí Atacadista. A empresa demarcou a área, montou o canteiro de obras e instalou uma frente de serviços para erguer o hipermercado. Desde então, a LDM passou a promover, em parceria com a Associação de Moradores, os campeonatos de futebol de areia às terças e quintas-feiras, às 19 horas, no Parque Lagoa de Calú.

Jackson Clésio é comerciante, desportista e, atualmente, é diretor de esportes da Associação de Moradores do bairro Alto do Cruzeiro. Jackson conta que os primeiros “babas” no bairro foram organizados entre o final da década de 1970 e início de 1980, pelo desportista e comentarista esportivo Ivanildo Sá Rêgo. O primeiro campo da Liga Desportiva do Alto do Cruzeiro (LDAC) era situado entre os bairros Alto do Alencar e Alto do Cruzeiro e o espaço era conhecido como Campo da Rocinha.

O diretor de esportes enfatiza que mais de 20 campeonatos abertos foram realizados pela LDAC, envolvendo outros bairros, como também vários campeonatos entre ruas, que envolviam os moradores.
André Calixto (foto)
Em 2001, surgiram comentários que o terreno do Campo da Rocinha pertencia à Diocese de Juazeiro. Dias após esses burburinhos, houve uma ocupação da área por pessoas que não possuíam moradias. Com piquetes, arames e construindo alicerces, cada pessoa foi marcando o seu espaço para erguer a sua casa. Então, os desportistas decidiram ocupar terreno de propriedade particular. Mas o proprietário tinha planos de lotear a área para destinar à moradia. Desde 2011, o bairro Alto do Cruzeiro não tem um campo. As casas construídas compõem hoje os bairros Monte Castelo e Monte Serrat.


"Triste e lamentável, ter que vivenciar essa dura realidade das perdas dos campos de futebol de chão batido". desabafa Samuel Alves, atleta e dirigente do bairro Lomanto Junior. 


Ele recorda que, na década de 70, o primeiro campo do bairro, foi as margens do canal da vergonha, atual sistema de canal coberto no Lomanto Júnior. Do outro lado do canal, o campo denominado “Arcanjão”, pertencia ao bairro Novo Encontro. Porém devido a expansão de construções de residências, o campo denominado "Arcanjão foi desativado. O bairro Lomanto Junior também teve que desocupar a área que utilizava como campo. O terreno era de propriedade particular e o seu proprietário loteou e comercializou os terrenos que lhe pertenciam, denominando o lugar como Loteamento Eldorado.

Em 1992, após a perda do seu primeiro campo, a iniciativa que os amantes de futebol do bairro Lomanto Junior tiveram foi ocupar o terreno em frente ao bairro, o campo passou a ser chamado de “Bezerrão”, uma justa homenagem ao morador e dirigente da Liga do Lomanto Junior, Irineu Bezerra. Entretanto, o primeiro campeonato foi realizado em 1994, e o time do Lomanto Junior disputou a final do campeonato com a equipe do Volta Redonda, oriunda do bairro Novo Encontro. A partida terminou empatada em 0 X 0, como o Volta Redonda possuía saldo de dois gols, a equipe sagrou-se campeã do primeiro campeonato realizado no “Campo do Bezerrão”.

André Calixto (foto)
Já em 1998, devido à construção do Banco de Sangue, o campo foi para o terreno onde, por vários anos, a Associação de Moradores promoveu as conhecidas barraquinhas de São João. Como o terreno era de propriedade particular, o proprietário passou a ocupar o espaço, forçando os dirigentes e atletas a saírem do local. Desde 2004, o bairro Lomanto Junior não realiza os seus tradicionais campeonatos.

Outra praça esportiva da cidade é o “Campo do Palmeiras” situado no bairro Piranga. O professor de educação física, Marcos Paulo, lembra que os primeiros “babas” aconteceram na Praça Santa Terezinha, só que o prefeito da época desapropriou a área para construção da referida praça na comunidade. Desde então, os adeptos do futebol de campo de chão batido, ocuparam o terreno por trás do Colégio Jutahy Magalhães. A Liga Desportiva de Piranga foi fundada em 1972, só que antes já existiam os babas, amistosos e treinos do Palmeiras que representava o bairro. Ele destaca que a maioria dos atletas atuava em vários times de futebol amador em partidas que eram realizadas no Estádio Adauto Moraes.

Após a fundação da liga, o presidente Miguel Aguiar e diretoria deram o ponta pé inicial dos primeiros campeonatos da Liga de Piranga. Por 26 anos ininterruptos, os dirigentes, como Jeová, Vandão, Mouze, Edgar, Paulo Pereira (Binho), procuraram fortalecer a Liga, bem como trabalhavam no sentido de a cada ano realizar um campeonato melhor que o outro. O exemplo de respeito e união entre os dirigentes da Liga de Piranga motivou outras agremiações da cidade a terem garra e um comportamento exemplar nos diversos campeonatos de campo de várzea do nosso município.

No ano seguinte, Pelelé e Jeová decidiram realizar um campeonato de veteranos, depois realizaram por mais dois anos e, em seguida, eles deixaram de organizar o campeonato. Entre sete a oito anos, a Liga de Piranga não realizou o seu tradicional campeonato, e, em 2008, Marcos Paulo, filho do ex-dirigente (Binho) assumiu a liga Desportiva do bairro e realizou seis campeonatos no Campo do Palmeiras. Como ocorrido em outros campos aqui citados, em 2014 apareceu o dono do terreno que a Liga de Piranga utilizou aproximadamente por 50 anos. A área foi loteada e o proprietário tem comercializado os terrenos para construção de residências.
André Calixto (foto)

Os dirigentes esportistas afirmam que têm lutado para não perder os campos de chão batido da cidade. Em alguns casos, o poder público municipal se comprometeu com as Ligas Desportivas a recuperar áreas para a prática esportiva. Na prática, as ações foram tímidas e os dirigentes foram se desiludindo. A comunidade recolheu assinaturas e encaminhou abaixo-assinados para realizar seção especial na Câmara Municipal para tratar o assunto, mas não houve solução para o problema da perda dos espaços.

Hoje, em Juazeiro, apenas a Liga 1° de Maio do bairro Santo Antônio, possui o seu próprio campo. O espaço conhecido como Lagoa do Vitorino foi desapropriado em 1990 pelo município e doado aos desportistas. Ao longo dos anos, o uso do campo é compartilhado com outras agremiações esportivas da cidade. Os babas também não enfrentam a especulação mobiliária. Atualmente, têm crescido as arenas desportivas, espaços privados onde atletas amadores pagam o espaço para jogar futebol entre amigos.  

André Calixto é estudante de Jornalismo em Multimeios.

quarta-feira, 15 de março de 2017

'Me apaixonei pela terra aqui'

Por: Ingryd Hayara
Foto: Ingryd Hayara

Enquanto a estrada de terra batida seguia, uma placa a esquerda anunciava a chegada ao Centro de Formação D. José Rodrigues. Do portão, dava para avistar, ao longe, a figura de Haroldo em pé, conversando com alguns moradores do local enquanto mantinha os olhos na entrada.

Ao me aproximar, me recebe com um abraço e um pedido de desculpa por ter esquecido a nossa entrevista. Logo após, me convida para sentar em uma mesa de cimento há poucos metros dali. No caminho, me apresenta Fred, um cachorro que o acompanhava fielmente. “Os meninos da república o adotaram há quatro anos e, desde então, segue conosco”, conta.

Ao sentarmos na mesa, contou da árvore que se erguia sobre o banco com os galhos secos, sem nenhuma folha aparente. Era o umbuzeiro, planta típica da Caatinga, que perde as folhas durante o período sem chuva para se proteger. O umbuzeiro, segundo Haroldo, forma bolsas nas raízes que armazenam água para o período de estiagem, se assemelhando às cisternas naturais.

O sistema natural de captação do umbuzeiro inspira a população rural a desenvolver tecnologias semelhantes de armazenamento da água. Através desses procedimentos, é possível viabilizar a promoção da convivência com o semiárido, principal meta defendida pelo Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA), sediado em Juazeiro – BA, na qual Haroldo Schistek, de 74 anos, é idealizador e atual presidente.

Com olhos azuis e sotaque acentuado, Haroldo chegou ao Brasil no início dos anos 70. De origem austríaca, veio ao país através da Igreja Católica, com a missão de padre. Os 10 dias de viagem de navio entre a Europa e a América do Sul foram importantes para, gradativamente, deixar o clima nevado de Gênova e se acostumar ao verão carioca, relembra.

Em pouco tempo, Haroldo já estava na Bahia para trabalhar na antiga Diocese de Barra, localizada em Barreiras, que pretendia desenvolver projetos sociais para o povo. Mesmo que na época não estivesse claro os aspectos que geravam a pobreza, a instituição tinha consciência de que os povoados pobres apenas deixariam sua condição caso se organizassem.

Foi nessa trajetória de pároco que se encontrou com Dom José Rodrigues, conhecido como o “bispo dos oprimidos”. “O trabalho dele se encaixava exatamente na minha ideia de ajudar”, explica.

Após o período de quatro anos, Haroldo se casou e decidiu adentrar em outra área. “Eu sempre tive interesse em agronomia”, explica. E, a partir disso, foi para Itália onde se tornou agrônomo pela Universidade de Agricultura, em Viena. Em seguida, trabalhou em uma agência internacional de ajuda, na Alemanha, por dois anos. Mesmo com sua estadia na Europa, revela que sempre quis voltar para o Brasil. Em seu retorno ao país, conta que fez a segunda graduação em Agronomia na Faculdade de Agronomia do Médio São Francisco, em Juazeiro. Desde então, nunca mais se mudou da região.

Após o terminar da faculdade, Haroldo começou a trabalhar para diocese onde tinha espaço para divulgar ideias sobre a agricultura alternativa, modelo que pensava os métodos agrícolas sem o uso de insumos químicos ou mecanização. A primeira oportunidade de estar em contato com agricultores para falar sobre a agricultura alternativa foi em Pilão Arcado–BA, por convite do padre da paróquia de lá. A partir disso, as formações ficaram mais recorrentes e ele teve a necessidade de construir um núcleo de formação que pudesse abranger esses territórios.

“O conceito da convivência com o Semiárido não foi inventado no escritório ou em âmbito acadêmico” afirma, enquanto me olha para confirmar que eu estava prestando atenção.  “Isso foi força das circunstâncias”. Haroldo relembra que assim que terminou a faculdade, percebeu que plantio de algumas monoculturas, como o milho e o feijão, não vingavam, enquanto plantas típicas da caatinga permaneciam verdes “Na verdade, não é uma seca que está acontecendo, mas uma evidência do nosso comportamento errado em relação à natureza”, concluiu.


Dessa forma, em 1990, fundou o IRPAA com a proposta de tornar acessível aos agricultores a proposta de convivência com o semiárido. Esse conhecimento é transmitido valorizando o saber popular. Haroldo defende que é preciso que o povo compreenda e, a partir disso, adapte à realidade da comunidade em que vive. “Depois que entendem, eles mesmos podem inventar o jeito deles de conviver com o semiárido”, explica.

Após adotar o país, Haroldo compreendeu as diversidades e particularidades do semiárido nordestino. Ao ser questionado porque escolheu o Brasil, responde: “Ah, me apaixonei pela terra aqui. Gostei tanto que decidi ficar no Brasil”, finaliza.


Ingryd Hayara é estudante de Jornalismo em Multimeios, na UNEB

Precarização da mão de obra terceirizada

Por Cássio Felipe e Victória Resende



Lucinéia Diogo Oliveira dedicava seu tempo a fazer “bicos” enquanto cuidava da casa e dos filhos pequenos. Há 14 anos precisou estender sua jornada de trabalho e hoje trabalho como terceirizada no serviço de limpeza da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). 





Durante este período, vivenciou sucessivas transferências de empresas – cinco, até onde consegue lembrar. Com a voz e o olhar de quem rememora um período nebuloso, relata ironicamente que a empresa do primeiro ciclo de contratações lhe deu muito “trabalho”. O salário, assim como a ajuda de custo para o transporte, atrasou quase um semestre. “Até hoje a gente ainda ‘tá’ com essa empresa na justiça, sem receber”. Faz dez anos. Mesmo diante dessa situação de total insegurança, sentia-se coagida por todos os lados: pela empresa que contratara o serviço terceirizado e pela necessidade de trabalhar.

Para começar o expediente pontualmente, Lu, como é carinhosamente chamada pelos colegas de trabalho, acorda com o dia ainda escuro, faz um café e se prepara para mais uma jornada: a limpeza de dois pisos do prédio administrativo. Varre, lava, passa o pano, tira o lixo, espana. Também é ela que prepara o cafezinho e cuida da copa, quase um ponto de encontro para alguns funcionários da instituição. Almoça ali mesmo, no local de trabalho, porque seria necessário pegar quatro conduções para se deslocar: duas para ir e duas para voltar. O descanso após a refeição, tão precioso para alguns, não existe na sua rotina: no velho acolchoado disposto na cozinha, seu sono é sempre interrompido por alguém que sobe ou desce as escadas ou para na janela da copa para comprar trufas – o dinheiro que recebe com a venda dos bombons é utilizado para comprar algum lanche durante expediente ou completar o valor das passagens de ônibus.

Lucinéia faz parte da estatística de 26,8% do mercado de trabalho terceirizado do Brasil, totalizando 12,7% de assalariados. Os dados, entretanto, são subestimados. Segundo a Central Única dos Trabalhadores (CUT) parte considerável dos trabalhadores terceirizados atua de maneira informal. Caso a estimativa contemplasse esse segmento, os números sobre as condições de trabalho da categoria seriam ainda mais alarmantes.

A mão de obra terceirizada sofre processos de precarização. Além de trabalharem cerca de três horas a mais, os terceirizados recebem em média 24% a menos do que os funcionários diretos de uma empresa, segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Diesse). “A gente não tem um salário bom, eles nunca têm uma data determinada para nos pagar. Outra coisa é que a gente nunca paga as contas em dia porque o dinheiro atrasa. Se a gente vai reclamar, dizem que terceirizado é assim mesmo, e aí a gente tem que se conformar”, conta Lu, em meio às tarefas do primeiro turno.

Situada às margens do Rio São Francisco está a cidade de Juazeiro, na Bahia, considerada terceiro lugar em geração de empregos no primeiro semestre de 2016 ficando atrás apenas de Franca (SP) e Cristalina (GO), segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). O número de contratações no município está ligado, sobretudo, ao ramo da construção civil, setor que tipicamente terceiriza a mão de obra.

Especialistas defendem, entretanto, que a terceirização não gera empregos. A empresa terceirada gera precarização do serviço com jornadas maiores que acabam por reduzir o número de postos de trabalho. “A jornada de trabalho é extremamente intensa quando a gente compara àquela do trabalhador direto. A empresa produz mais? Sim. Mas produz porque os trabalhadores terceirizados têm uma carga horária exaustiva”, afirma o sociólogo Fernando Souto.

Além disso, segundo Fernando, a rotatividade de funcionários – comum quando se trata desse assunto – raramente permite que o trabalhador se estabeleça na empresa, já que é substituído num curto intervalo de tempo. Outro ponto a ser considerado em relação a esse rodízio constante é a dificuldade dos terceirizados se organizarem em sindicatos: ora porque, ao serem demitidos dos seus cargos, não mais se reconhecem enquanto trabalhadores terceiros; ora porque o trabalho terceirizado permite diferentes representações como serviços gerais, vigilância, construção civil, entre outros, fragmentando assim a ação coletiva.



José Lima é terceirizado há dezenove anos e trabalha como vigilante da Universidade Federal do Vale do São Fransicisco (UNIVASF) há doze. Relata que durante esse período, passou por cinco empresas diferentes, sendo que cada uma pode permanecer até cinco anos. Para ele, a maior dificuldade em ser terceirizado é a falta de estabilidade no emprego, apesar do sindicato de vigilantes exigir a manutenção do quadro de funcionários na substituição de uma empresa por outra. Diferente da situação de Lucinéia, que até hoje luta na justiça com uma das empresas que não efetuou seu pagamento, José diz que nunca teve esse tipo de problema, uma vez que a Universidade garante aos terceirizados um ressarcimento, caso a empresa atrase ou surpreendente entre em colapso.

Luciano Campos trabalha como motorista há quatro anos na UNIVASF e é sindicalizado no SINDFRETUR e concorda que um dos problemas no mercado de trabalho e a ausência de estabilidade. “Para terceirizado não tem conversa. Tudo é caso de substituição e aí a gente fica sem perspectiva”.


A face invisível da terceirização


Juazeiro possui em média 3 mil funcionários terceirizados, segundo o Sindicato dos Trabalhadores de Limpeza Intermunicipal (SINDILIMP). Os terceirizados estão por toda a parte: na limpeza urbana, nos órgãos públicos, nos setores privados. Mas a discriminação que sofrem não cabe nas estatísticas. Além das dificuldades nas empresas contratantes e terceirizadas, esses trabalhadores ainda enfrentam os problemas internos dos seus locais de trabalho. Para Lucinéia, um deles é a falta de comunicação e a discriminação.

No dossiê “Terceirização e desenvolvimento: uma conta que não fecha”, publicado pela CUT em 2015, as causas da discriminação estão relacionadas à distinção entre trabalhadores diretos e terceiros em relação às desigualdades de salário, jornadas de trabalho e qualificação. “Temos que aguentar o preconceito que parte de outros colegas que não são terceirizados e de alguns alunos, mas a gente é tão funcionário quanto os outros do quadro. Às vezes, a gente vai questionar alguma coisa e eles dizem que temos que acatar tudo porque estamos aqui para isso mesmo. A gente sempre está rastejando. Como precisamos do emprego, temos que nos submeter a isso”, relata Lucinéia.

Ainda segundo o dossiê, a terceirização afeta a subjetividade e a perspectiva de tempo dos trabalhadores. A rotatividade dos funcionários injeta um sentimento de fragmentação, que gera uma falta de pertencimento ao local de trabalho e o tempo ganha uma conotação de areia para os terceirizados, uma vez que eles não conseguem construir uma narrativa de seus percursos profissionais. Logo, a lógica que a terceirização propõe deixa de ser uma prática da cidadania e da autonomia para se tornar um pretexto da manutenção dos poucos que detêm o poder.

Lucinéia trabalha num lugar que aglutina tanto conhecimento, gera tantas discussões acerca do mundo e das relações sociais. Apesar disso, é um lugar que é repleto de pessoas que têm dificuldade em enxergar o outro. Por isso, sabiamente, Lucinéia afirma: “a educação começa através do respeito por cada um”.



Por Cássio Felipe e Victória Resende são estudantes de Jornalismo em Multimeios




Matéria realizada em novembro de 2016 e publicada em 15 de março de 2017